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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

De emissores-receptores

 Ia a sair do barbeiro, passa-me de ante um desses pardos indianos que deambulam por todo o lado de «tablete» na mão. Normalmente conversam com o objecto meios a berrar e numa língua de trapos que se não atura. Há dias na caixa do super chegou um atrás de mim nestes termos que nem conseguia eu ouvir a menina da caixa. Virei-me para ele com pouca cerimónia.
 — Importa-se de falar mais baixo?
 — Porquê? — respondeu-me com insolência.
 — Ai tu até falas português?! Então entendes-me bem. Baixa-me lá a voz se fazes favor!
 Não só baixou o volume como calou a matraca. Acabou-se a conversa.
 Sarnosos do caraças!
 Pois ia eu hoje a sair do barbeiro e passa-me de ante um desses, com a «tablete» na mão. Mas este não falava; trazia era o objecto a retransmitir rua fora uma guinchadeira tipo Avé Críxena ióim, ióim, com acordes de faquir encantador de serpentes. Coisa lá de além-A.I.M.A., donde estes espécimes estralejam agora cá como pipocas, não sei se estais a ver o filme…
 Ora em saindo do barbeiro saiu-me logo este bago de milho meio tostado a dar-me música (música?!…) e dou comigo a pensar. — Mas eu tenho agora de aturar este caramelo no meio da rua, assim, logo à minha frente?… E logo no mesmo caminho que eu!… E com isto, nós, cá, todos os que passamos ou nos cruzamos com esta ave (pouquíssimo) rara (infelizmente), vamos a ter de lhe gramar a «riqueza» cultural que o pariu lá na terra donde nos também já calhou aqueloutro que promoveram a marajá de Broxelas!
 Raisparta! [Com F maiúsculo, leia-se.]
 Pois bem! Pus-me a um passo do gajo. Só um passinho atrás, a segui-lo. Enquanto isto puxo com jeitinho da minha «gaita» (refiro-me ao telemóvel, nada de confusões), discorro nela pelo blogo da Bic Laranja que tem uns fadunchos jeitosos e, nem três passos andados, já estava aquele freguês a ser enriquecido culturalmente pelaquelas orelhas pardas a dentro com umas sardinheira que eu e a Amália lhe atirámos.
 Isto é verdade! Não foi da trapeira nem de nenhuma água furtada. Foi mesmo ali ao pé dele, só um passinho ao lado. Volume no máximo. E sorri cá comigo sem olhar para ele.
 Epá, isto é sincero! Nem meia dúzia de passos andados e logo aquele freguês salvador da Segurança Social ou lá o que é, acabou com a emissão sonora de ondas curtas trazida lá da Índia ou do raio que o parta, e vai daí enfiou o retransmissor na algibeira como quem enfia o rabinho entre as pernas.
 Sardinheiras. Foi remédio santo. 
 Ora já vistes! Pensava-me aquele c@x#!ho que isto do enriquecimento cultural era só de lá para cá e assim à lagardère pela' ruas de Lisboa ou quê?!

Amália Rodrigues, Sarinheiras Amália — Sardinheiras
(Linhares Barbosa, Fernando de Freitas)

3 comentários:

  1. estes salvadores da seguranca social ,sao uma comedia

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  2. Numa rua onde passo todos os dias está sepre uma gaja vinda desses lados - mais feia que o Belzebu, diga-se por ser verdade - sempre a ouvir uma guinchadeira dessas enquanto bronzeia os cascos.

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